Correspondências de Guerra

Name: John

Saturday, November 11, 2006

Sobre as lembranças.

Ela disse-me que teríamos uma casa perto de uma praia deserta, e as esperanças não morreriam. Mas eu não acreditei muito, sequer dei créditos para pensamentos tão levianos. Ontem paramos perto do mar, só que esperei bastante tempo para atirar num inimigo.

Sempre tive medo de armas de fogos, aqui elas são companheiras inseparáveis e me fazem crer que possuo algum tipo de força junto delas. Sei que não é verdade, mas é preciso acreditar em alguma coisa mais forte do que você conhece. Até fumar comecei, afoguei-me a princípio, porém já estou me profissionalizando na matéria.

Algumas canções também estão desaparecendo vagarosamente de minha cabeça, as lembranças de músicas alegres parecem estar bloqueadas e eu não sei em que tempo eu vivo realmente. Sempre vejo os mesmo caras, com os mesmo rostos desajustados e o Governo acha que estamos bem e orgulhosos de nosso trabalho. Eu não tenho muito do que me orgulhar, se eu conseguir sair daqui com vida e alguma dignidade posso até dizer que sim.

A última taça do vinho, eu lembro bem da cor, dos olhares e de cada detalhe do corpo pelo qual percorri com a boca e as mãos ávidas de um estranho prazer. Ela disse-me que teríamos uma casa perto de uma praia deserta e poderíamos chamá-la de nossa praia e até nadar nus enquanto fosse verão. Lembro-me bem de cada detalhe e se pudesse ter uma noite daquelas novamente eu daria a vida para ter de volta algo que foi perdido há meses.

Parece que nunca para de chover aqui, e nunca é bom. Quando é assim o negócio é encontrar um bom motivo pra viver, ou tentar ver o que é bom disso tudo. Estou com preguiça de pensar nessas e em outro monte de coisas.

Tuesday, September 19, 2006

Partida.

Dia de mudanças e coisas mais. Muita gente se despedindo e desejando que os filhos da Pátria retornem são e salvos, mesmo sabendo que alguém será sorteado pra morrer. Já não havia mais ninguém pra me dizer um "adeus, até logo", alguns amigos bêbados perto do cais ainda dançavam por lá, enquanto muitas famílias davam todo o tipo de recomendação para os seus queridos filhos - os mesmo conselhos que seriam esquecidos quando pisássemos no front - então, fiz melhor, não escutei nada, comi biscoitos amanhecidos e embarquei.

Alguns de nós estavam sorridentes e parecia que haviam esperado por aquilo toda a curta vida deles, enquanto outro estava como eu, uma triteza só, talvez por saber que em guerras você é obrigado a matar. Só queria poder inverter esses valores, se fosse possível mudar a cabeça de alguns generais. De qualquer forma, era um clima de tensão naquele navio, da liberdade ou morte? Só bem mais tarde poderíamos decidir, mas estávamos certo de que já haviam tomado algumas providências por nós. Nossa única missão era matar vietcongs.

Cinco dias de viagens, dias intermináveis, dias de fome, calor, dor, frieras, cabeça quente, comida ruim. Senti-me como um escravo mandado à colônia para trabalhar, sorte minha se tivesse chegado morto ao outro lado. Mas nem tudo é sorte nessa vida. E foram dias de apreensão e espera, nervosismo e desespero, quem sabe uma ajuda, alguém nos resgatasse de lá. Agora era tarde demais amigo, o navio já zarpara.

Monday, September 18, 2006

Alguns dias.

O tempo não está favorável hoje, muitas chuvas aonde estou, porém não houve gritos, nem dor, apenas silêncio.

Espero ter essa "paz" por mais alguns dias, espero ir embora.